mulher olhando para o céu

O mundo não está preparado para as pessoas ansiosas

Final de ano estava em uma fase positiva e confiante. Não que as datas comemorativas e o novo ano que já chegou estivesse me influenciando sobre isto, afinal, sou do tipo de pessoa que acha que estes dias sã0 como quaisquer outros do ano. Enfim, de qualquer forma, estava há tempos sentindo a necessidade de respirar novos ares, ver novas cores, renovar as energias e estava muito empolgada para fazer uma viagem, coisa que havia descartado da minha vida desde que comecei a apresentar sintomas de ansiedade, síndrome do pânico e depressão.

Evitei por muito tempo, recusei vários convites, sempre tentei contornar não entrando em detalhes com as pessoas sobre o meu medo e trauma de viagem. (Se você ainda não sabe do que eu tô falando, no post “Quando descobri que tinha ansiedade” você vai entender melhor!). Mas, surpreendentemente, eu estava confiante e me sentindo pronta para encarar uma próxima oportunidade que surgisse e reviver essa nova-velha experiência de viajar pra algum lugar bacana.

A oportunidade apareceu! Uma reunião com amigos, em um ambiente agradável, enfim, tudo conspirando a favor. Apesar que a viagem demoraria em torno de 7 horas, eu estava mais empolgada e feliz do que nunca para fazer algo diferente e sair da minha rotina depois de tanto tempo… No período pré-viagem, passei por algumas fases de medo e quase desistência, mas procurava sempre desviar o pensamento nessas horas e mentalizar tudo de bom que iria acontecer comigo se eu fosse nesta viagem.

Chegado o dia, eu estava, finalmente, ansiosa! Mas aquela ansiedade normal e até gostosa, como há muito não sentia. Me preparei dias antes para não deixar nada para última hora e estava munida de tudo que precisava para fazer uma viagem bem tranquila. Havia muito tempo que não entrava em ônibus de viagem, sequer via algum passar por mim na rua. Comprei passagens para o melhor e mais confortável ônibus disponível na frota que me levaria ao meu destino, afinal, sou claustrofóbica desde sempre e preciso estar sempre em locais espaçosos e arejados para não ter nenhuma sensação de agonia, sufocamento e nem crise de pânico. Ainda tenho muito que trabalhar isso…

Enfim, entrei no ônibus! Como todo brasileiro (sem querer generalizar, mas já generalizando) acabei atrasando e chegando bem em cima da hora para o embarque, o que me fez entrar correndo no ônibus em que todos já estavam devidamente posicionados, com as cortinas fechadas e suas poltronas reclinadas. Dei um pequena desesperada quando me deparei com a cena, mas continuei me ajeitando até encontrar uma posição bacana na cadeira.  Acho que fiquei uns bons 20 minutos fazendo isso e quando terminei, pude dar aquela respirada aliviada porque tinha conseguido estar ali e nem acreditava que estava tão corajosa com toda aquela situação.

Tentei sentar na janela para poder ter uma visão da estrada, já que também sofro vertigens e enjôos quando estou em veículos em movimento sem poder enxergar o que está do lado de fora,  mas a pessoa que estava na frente, com a poltrona totalmente reclinada, não fez o menor esforço para ajudar meu esposo e eu que estávamos completamente espremidos atrás. Por isso, decidi ficar no corredor, pois o cara que estava a frente deste assento, neste caso, foi mais educado e liberou mais espaço.

Enfim, me sentei e comecei a viagem, apesar da viagem já ter começado havia algum tempo. Tentei olhar pelas janelas, mas o vidro fumê me impedia completamente de enxergar qualquer coisa do lado de fora. Estava tudo escuro, fechado, apertado, e não bastasse tudo isso, o banheiro do ônibus ficava no “andar” de baixo e era extremamente pequeno e claustrofóbico. Como todo bom ônibus de viagem, o odor era extremamente agradável (só que não)!

Quando realizei em minha mente toda aquela cena, me dei conta de que teria que ficar “presa” ali durante 7 horas, completamente acordada (não consigo dormir em viagens) e com a sensação de tudo rodando ao meu redor (só de lembrar, começo a sentir enjôo – sim, eu sei que tem remédio para isso e eu já havia tomado). E foi então que ela, a minha companheira de horas de estresse e ansiedade apareceu: a crise de pânico!

Ondas intensas de calor, aperto no peito, taquicardia, sudorese, nó na garganta, dificuldade de respirar, dificuldade de engolir, pavor e um desespero horrível me dominaram em questão de pouquíssimos minutos. Comecei a pedir desesperadamente ao meu marido que pedisse ao motorista (que inclusive foi muito solícito, gentil e tentou me acalmar) para parar o ônibus, pois estava a ponto de levantar e começar a gritar “para isso, pelo amor de Deus, que preciso descer!” (Imagina a cena). Comecei a chorar desesperadamente e ninguém a nossa volta entendia nada mas, enfim, conseguimos descer a tempo em um restaurante na estrada, mas ainda perto da minha cidade e conseguimos chegar sãos e salvos em casa após alguma meia hora depois disso tudo.

E aí você está lendo tudo isso e pensando: onde entra o título do post nesta lenga-lenga toda? E eu te respondo: Em tudo! Já parou para reparar como são os meios de transporte (incluindo elevador), as cabines de lojas, banheiros de restaurantes e bares e etc.? Quando não é tudo pequeno e espremido, são locais normalmente sem ventilação, ou com o teto baixo, ou apertado, enfim, sempre compactados para se ter mais espaços como estes para transportar ou caber mais pessoas e tentar ter o máximo de aproveitamento total dos ambientes.

Para pessoas que não sofrem de claustrofobia, pânico e ansiedade, não há o menor problema em lidar com estes cubículos pelo mundo afora, mas para nós que sofremos e muito com isso, raramente encontramos algo que atinja nossas expectativas. Para pra pensar como o mundo ainda não evoluiu o suficiente para lidar com as pessoas com deficiências físicas. Como só agora temos meios de transporte pouco adaptados para cadeirantes, como as calçadas são irregulares, como não há sinalizações adequadas para pessoas com problemas de visão, enfim, como ainda tudo é muito precário no que diz respeito a incluir esta parcela de pessoas na sociedade.

Assim, também, funciona com quem sofre de transtornos da mente. Nada é adaptado e a maioria esmagadora das pessoas não são e não estão nem um pouco preparadas para lidar e ajudar alguém tendo uma crise de pânico na frente dela, por exemplo. Grande parte da responsabilidade disso é nossa! O fato de negar o problema e sempre virar as costas pra ele, ou pensar que alguém um dia vai tomar uma atitude é que faz com que as coisas permaneçam sempre como estão.

É por isso que sempre defendo e incentivo as pessoas a assumirem seus transtornos e falar muito sobre isso sempre que houver a oportunidade, sem nenhum preconceito ou medo de ser taxado de qualquer coisa ou não ser aceito na sociedade. Quanto mais fizermos isso, mais chances de melhorar o mundo e de adaptá-lo para todos viverem com as mesmas condições, teremos!

Apesar de ter sido uma situação muito ruim para mim e ter enfrentado depois desse dia momentos de quase luto, ainda consegui sair com um saldo positivo. No meio de tudo isso, eu pude ver que existem pessoas que se preocupam com o próximo, pois no caminho, algumas foram extremamente cordiais e atenciosas comigo, em meio à maioria que só queria saber de prosseguir sua viagem no seu ambiente claustrofóbico sem ser atrapalhado por ninguém, já que para estas pessoas, virar as costas, deitar e dormir é o melhor remédio!

Um comentário em “O mundo não está preparado para as pessoas ansiosas

  1. Achei os seus depoimentos nesse diário, e me identifiquei, há 6 meses tive uma crise ansiosa, nunca imaginei isso comigo! Desde então uso o clonazepam, pego um comprimido e divido em 4 porque, um inteiro me dopa!!! Ai me acalma, mas essa sensação está me matando a cada dia! Sou modelo, bonito e tenho uma vida feliz, mas estou com vontade de me matar, já que e um peso interno tão grande que não estou suportando mais. Me ajude por favor!

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